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Memórias de uma São Bernardo mais verde
Entrevista com Cyro Cassetari sobre os velhos tempos do nosso município
Nosso município está completando 457 anos nesta sexta-feira, dia 20 de Agosto. As festividades e programações especiais estão acontecendo desde o início deste mês, e irão se prolongar até o feriado da Independência do Brasil, em 7 de Setembro. Além de comemorar, os eventos também darão destaque ao histórico da cidade, mostrando alguns pedaços da história do município.
No intuito de nos dar uma visão mais precisa do nosso passado, o jornal Cosmopolitano entrevistou Cyro Archimedes Cassetari, 72 anos, um dos moradores mais antigos da nossa cidade, e proprietário da loja de Artigos esportivos Cassetari. Ele esteve em nossa região desde que o Centro de São Bernardo era conhecido por outro nome, Vila Bucólica. "Ela tinha esse nome por causa da quietude e tranquilidade que havia aqui, antes da urbanização, quando os habitantes eram apenas algumas poucas famílias italianas e japonesas. Na época, a vila ocupava mais ou menos a área entre as ruas Marechal Deodoro e Jurubatuba", os atuais centros comerciais do município. "Foi bem quando a cidade foi desmembrada de Santo André".
São Bernardo ainda era considerada uma área rural. A procura por habitação era quase não-existente, devido à calmaria que deu o nome para a vila, até a chegada das montadoras de veículos. "No início, São Bernardo era famosa apenas pelas indústrias de móveis, só depois é que foram aparecendo as fábricas de carros. Primeiro veio a Mercedes Benz, depois a Volkswagen e a Karmann Ghia na cola dela. Era uma chance fácil de emprego, então muitas famílias migraram pra cá buscando uma vida melhor. De 40 mil habitantes passou para quase um milhão".
Desde então, São Bernardo passou por uma urbanização constante, passando de uma região campestre para uma cidade. Foi a consequência da mudança das montadoras para a região e do aumento da população, e apesar de ter sido bom para todos, não foi bom para tudo. "Uma boa quantidade de famílias queriam se fixar aqui na região, então o preço dos terrenos subiu barbaridades. Muitos dos moradores aqui se aproveitaram e começaram a vender parte dos seus terrenos, os quintais principalmente. Hoje em dia estamos sendo sufocados pelos apartamentos".
Um dos fatores pelo qual o senhor Cassetari mais se incomoda, sobre a urbanização de São Bernardo durante os anos, é como estamos perdendo cada vez mais o espaço para o verde, que costuma ser um dos cartões de vista da cidade. "É triste, as casas aqui costumavam ter quintais grandes cheios de árvores... Até a tal divisão dos terrenos, a cidade tinha muitas árvores, todos tinham uma no quintal. Não só quase ninguém tem quintal hoje em dia, quanto mais árvores. Tudo em nome do progresso, é o que dizem".
Houve um caso recente, cerca de quatro anos atrás, onde o senhor Cassetari tentou impedir a derrubada de um jatobá no terreno onde hoje se situa uma agência do Banco Nossa Caixa. "Era um estacionamento, com esse jatobá bem no meio do pátio. Era enorme, muito antiga, muito linda também. Quando o estacionamento foi desativado e o terreno vendido, eu protestei, fiz o que pude para que não derrubassem ela. Quase fui preso, porque estava tudo legalizado, eles tinham a autorização para o corte da árvore
Tanto gosta deste contato da natureza, que ele mesmo mantém três árvores frutíferas nos fundos da sua loja, datando cerca de cinqunta anos de vida cada uma. "Enquanto eu estiver aqui, ninguém põe a mão nelas".
O senhor Cassetari mostra uma preocupação real com nosso nível de progresso urbano. "São Paulo está mudando para cá. Nós temos cada vez mais apartamentos do que casas, e cada vez menos verde na cidade." Iremos mesmo perder a natureza que é nosso cartão de visita municipal? Essa estatística continuará até o fim do verde que enfeita cada rua? Ou conseguiremos casar o moderno com o natural, sem perdas em qualquer um dos lados? Vejamos como essas perguntas irão ser respondidas até o próximo ano.
Gustavo Mariano |
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